feups

"quero o tempo presente que não tem promessa"

Clarice Lispector
~ Tuesday, February 18 ~
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Há tanto tempo eu ouço essa música.
Há tão pouco tempo ela faz sentido.


~ Monday, February 10 ~
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Espero que os meus olhos me denunciem

Que me entreguem

Que te gritem

O que eu não sei dizer.

 

Minha voz é pouca

Minha fala é quase muda

E quase sempre muda o que eu quero dizer

 

É que o que eu quero dizer é indizível

Quem sabe com os olhos espremidos,

Quem sabe por meio dos sorrisos (que você me traz),

Esse algo não se desprende

e te sussurra

O que em mim é tão latente

E às vezes me assusta

 

Espero que você não espere nada

Que eu simplesmente seja

E o que quer que eu seja

Caiba em seu futuro

Em seu presente

 

Eu abandono o passado

O meu e o seu passado

Seja lá o que tenhamos passado

Foi-se

Quero a reinvenção e o começo

Ser novo e fresco

Para te caber inteiro em mim

Até o fim.


~ Sunday, October 6 ~
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Itanhaém

Itanhaém


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~ Tuesday, September 24 ~
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MEU AVÔ

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Eu estava sentado à mesa da cozinha da casa dos meus avós com um miolo de pão caseiro entre os dedos. Eu amassava o pão enquanto meu avô amansava o seu espírito. É que, enquanto eu apertava o segredo do pão, meu avô esparramava suas memórias pela cozinha.

Éramos quatro em quatro cadeiras metálicas (porque se fossem de madeira, contribuiríamos com o desmatamento, diz meu avô). Ele estava a minha direita, camisa branca com botões displicentes e óculos escuros de grau. Atrás dos óculos dois olhos espremidos e atrás dos olhos um cílio que teima em nascer invertido. “São cílios entrópios” ele disse certa vez a um oftalmologista desavisado.

Estes cílios invertidos não são de ordem genética, mas de natureza travessa. É que meu avô, de alma inquieta, conseguiu a difícil arte de machucar cinco vezes o mesmo olho. Na última vez, ainda criança, ele estava brincando com um colega e topou com a quina da mesa.

Para evitar uma surra do meu bisa, mentiu dizendo que havia levado um coice de um cavalo. Escondeu essa mentira por anos até que um dia, trabalhando num cafezal, foi surpreendido por Seu João, um homem simples do campo, que observando a maneira com que meu avô se comportava na lida, alertou-o:

- O Sr. Não gosta de roça e aqui não fica muito tempo. Vais ser militar, professor, vais conhecer uma moça mas não vai se casar com ela. Depois conhecerá outra (que com certeza era mais bonita do que a primeira), e é com ela que você vai se casar.

Meu avô, descrente, disse:

- O Sr. contou pra frente, quero ver adivinhar o que aconteceu lá atrás!

E foi aí que Seu João descreveu a cena da mentira tal qual ela ocorrera. “Com que diabos esse homem sabe de algo que eu nunca contei pra ninguém?”.  Meu avô não me contou o que aconteceu depois, mas imagino que ele deva ter ficado abismado e há de ter soltado aquela gargalhada profunda (característica da família) de quem fora surpreendentemente convencido, embora mortalmente desconfiado.

Este não foi o único episódio “sobrenatural” na vida do meu avô. Certa vez, enquanto tropeiro em terras sul mato-grossense, ele andava com dois cavalos procurando pouso. Achou uma taberna numa cidadezinha onde havia muitos araguaios, alguns falavam em Tupi, língua que ele não compreendia. Foi até o dono da taberna, pagou o pernoite e foi se deitar. Acordou no meio da noite sendo cutucado por um desconhecido:

-Acho melhor você ir embora daqui. Têm dois Paraguaios querendo te matar pra pegar os seus cavalos!

Assustado, meu avô ajeitou suas coisas e saiu a esmo pela escuridão da noite. A certa altura, sentiu algo enroscar na capa. Desceu pra ver o que era, riscou um fósforo e viu uma cruz. Com a parca luz da chama percebeu que estava num cemitério. Meu avô tinha pavor de cemitério, de mortos, de cruzes. Piscou forte, suspirou com força. Pensou seriamente em gritar, mas não o fez, sabia que era inútil, não havia ninguém vivo ali. E foi então que ele descobriu que o grito só serve quando há um interlocutor. Gritar no vazio é gritar pra si mesmo. Recolheu a própria voz e usou a energia acumulada para escutar seus instintos. Talvez por ironia, talvez por coragem, resolveu que dormiria ali mesmo. Acordou com as mesmas roupas, a mesma pele jambo, o mesmo olho com cílios entrópicos. No entanto era outro, enxergava um mundo sem medo de cemitérios.

E essa capacidade bonita de se reinventar a partir de si mesmo, esses desdobramentos que o fazem ter uma natureza tão densa e, ao mesmo tempo, simples. Essa arte de aprender e de escutar lucidamente o que lhe é dito com categoria e conhecimento, é que fazem do meu avô uma memorioteca. Meu avô é a partir daquilo que ele já foi. E cada vez que ele conta uma história, e ele sempre conta uma história, ele se legitima e se constrói e se revela diante de todo mundo.

O que talvez meu avô não saiba, é que enquanto ele conta de si e de suas memórias, ele está nos ajudando a compor as nossas histórias. Ele me faz viver um passado em que eu não passava de uma hipótese, um por vir no mundo e, ao mesmo tempo, constrói comigo a memória do tempo presente, que agora é passado, mas que eu trago tão fresco em mim que ainda posso sentir o miolo de pão sendo amassado pelos meus dedos.

Tags: memorias casa dos avós tatuí
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~ Saturday, September 21 ~
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Preguiiiçaa

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~ Friday, September 20 ~
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O Livro de Alexia

“O livro de Alexia” escrito por Giselle Jaques e publicado pela editora Escândalo, é daqueles que facilmente viraria filme. Desses que, não fosse o tema, seria patrocinado pela Globofilmes e levaria milhões à tela de cinema. Mas, em se tratando de uma estória gay, o filme dificilmente chegaria a esses números. Infelizmente, o mesmo acontece com a literatura homoafetiva. A estória de Alexia é contada com grande desenvoltura e num ritmo bastante envolvente através de personagens carismáticos e humanos. É uma estória fácil e prazerosa e o livro só sai das mãos quando ele chega ao fim.

Apesar do ditado de que não se deve jugar um livro pela capa, inicio a minha análise justamente comentando sobre ela. Aqui, a capa anuncia subliminarmente a estória do livro. Trata-se de um quebra-cabeça com peças negras e uma única peça com destaque em vermelho. É interessante notar que a peça, tal como os personagens, possuem quatro encaixes. Não à toa, há quatro personagens no livro e quatro capítulos. Cada capítulo assume uma personagem como protagonista e aprofunda, através de uma viagem no espaço-tempo, outras camadas da estória.

Assim como num caleidoscópio, essa sobreposição de imagens cria, aos poucos, outras combinações por vezes mais complexas do que a original. Assim, o livro nos apresenta suas personagens através de fatos recortados no tempo de modo que permite ao leitor/espectador uma interpretação ampla das motivações de cada personagem.  Uma questão importante a se ressaltar é que a estória é essencialmente sobre as relações de amor e de afeto, e que a leitura será mais complexa à medida que o leitor agregar suas referências, angústias e anseios sobre o amor.

Para além da minha história pessoal, as minhas referências são essencialmente constituídas por músicas e filmes, e é neles que vou me pautar para ampliar a discussão. Logo de início, “o livro de Alexia” me trouxe à memória um filme alemão chamado Dreis

(http://www.youtube.com/watch?v=URVSqY45AlQ).

Trata-se de um triângulo amoroso bastante interessante que tem Berlim como pano de fundo. Diferentemente do livro, este filme se pauta menos pelas explosões passionais de ciúme e constrói personagens intrigantes, que nos tiram da nossa zona de conforto na medida em que os personagens não encaram o amor como uma disputa ou um jogo de forças entre os amantes, mas sim uma composição entre os desejos efêmeros e um companheirismo construído que vai se consolidando com o tempo.

Num tom mais paulistano e decadente, lembrei-me também do clipe da música Moon do cantor e compositor Thiago Pethit. O clipe foi dirigido pelo renomado cineasta Heitor Dalia e conta a estória de um triângulo amoroso formado por dois garotos de programa e uma garota. Aqui, tal como no livro, o ciúme é um importante motor e a letra “it might be soon, my heart changes with the moon” lembrou-me muito da personagem Ângelo, o “macho alfa” do livro.

(http://vevo.ly/MY7wru)

Já o trecho “I once fell in love with you, just because the sky turn from grey into blue”, da música Good Friday do duo Coco Rosie, foi minha trilha mental para o romance inesperado que acontece mais pro fim do livro. Há nessa música, assim como na estória do livro, certa melancolia, um desconcerto em ambos que se encontram e se transformam numa forma potente de amar.

http://www.youtube.com/watch?v=yiJnSgTQFy4

O livro de Alexia é uma leitura interessante, que impressiona pela naturalidade com que a autora constrói os personagens e seus diálogos. No entanto, sob a minha perspectiva, um livro que apresenta uma estória tão cheia de vitalidade e luxúria, poderia explorar um pouco mais a ideia de que o amor pode ser a chave pra nos libertar dos egocentrismos e do ciúmes excessivo. Definitivamente, a ideia de amor que eu tenho pra mim não é a mesma que se Giselle Jaques constrói para suas personagens.

Tags: literatura thiago pethit música dreis cocorosie editora escândalo giselle jaques o lilvro de alexia
~ Tuesday, July 2 ~
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~ Wednesday, October 31 ~
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sopro

No sopro o estrondo do desconhecido
Um ato
Um desabafo
Um intacto desejo de conciliação

A voz adiante
Num sangue sem ritmo
Um tiro perdido
no escuro

O destino do destino
Desajustado
Comprimido
Pela ilimitada impotência
De se estar vivo
pra
e morrer

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desejos

Em matéria de desejo
A matéria é em segredo
É um pedaço,
Um percalço,
Um desespero.
Invisível mas palpável
Em contato
Com o mais antigo
dos desassossegos.


~ Wednesday, August 15 ~
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~ Tuesday, August 14 ~
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~ Monday, August 13 ~
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~ Sunday, August 12 ~
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